Aniversário Mãe Menininha do Gantois


 
Hoje, dia 10 de fevereiro, essa iluminada guerreira faria 125 anos. Seu aniversário de nascimento não é somente a razão por eu estar escrevendo essa carta hoje. É também para falar um pouco das suas lutas, que são lutas de todos nós brasileiros miscigenados que construíram esse Brasil.

É bom que se faça uma retrospectiva do que representa sua dinastia num momento tão delicado que nosso país está vivendo e que tantas importantes conquistas veem sido colocadas a prova.
Ela é bisneta de nobres africanos que foram desrespeitados em sua terra, com o comércio dos mais absurdos que esse planeta já viu acontecer, tendo sua família trazida num navio negreiro e aportado na Bahia. Seu avô era um escravo alforriado e sua vó a fundadora em 1849 do ILE IYÁ OMI ÀSE IYAMASÉ – TERREIRO DO GANTOIS.

O Terreiro passou por todas as perseguições quando o culto do candomblé era proibido no país.

Com a hierarquia respeitada e que só pode ter como dirigentes mulheres (o que já é uma resistência), ela foi sagrada Iyálorixá em 1922, aos 28 anos.

Assumiu não só a dificílima função de ser a rainha do trono de um dos Terreiros mais importantes do Mundo, mas principalmente adotou a continuação da luta contra as perseguições aos ritos africanos, a luta pela emancipação das mulheres e a luta dos negros. Ao mesmo tempo que foi a primeira Mãe de Santo a abrir as portas para que brancos e católicos pudessem frequentar o Terreiro. Atitude até hoje questionada. Mas se tem algo que essa mulher sempre se preocupou na vida foi fazer com que todos entendessem que somos iguais perante a força maior, vinda de onde e da forma que vier.

Olha só que interessante, foi justamente em meados dos anos 70, em plena ditadura militar que foi extinta a Lei de Jogos e Costumes, que proibia os ritos e etc.

Essa lei foi a que ela mais driblou durante maior parte de seu reinado. Com aquela doçura impressionante que eu tive a honra de desfrutar e aquela firmeza e braveza que tantas vezes assisti inebriada num misto de admiração e temor, mas acima de tudo respeito, que ela foi ganhando espaço e lutando contra as “forças da ordem”.

Assistia regularmente as missas católicas e até conseguiu convencer o bispo a permitir a entrada de suas filhas de santo, vestidas com suas roupas do candomblé para assistir as missas nas igrejas de Salvador.

E ela mesma está exatamente hoje reafirmando que o fato de não estar presente fisicamente, seu legado não pode ser esquecido e seu terreiro jamais afrontado.

Que toda sua luta não foi em vão.

Seus verdadeiros filhos irão dar continuidade as suas conquistas. Jamais irão esquecer que somos todos iguais e que devemos, acima de tudo respeitar o humano que ainda exista em nós. Resistiremos e nossas preces sempre serão para que nosso TERREIRO DO GANTOIS siga sendo reverenciado e amado com sempre foi.

Que Oxossi, Oxum, mãe da sua representante mais duradoura e importante, Mãe Menininha do Gantois, e o Deus da justiça e dono dessa casa Sangò, iluminem o Terreiro, seus descendentes e dirigentes para que sua dinastia não se perca e principalmente seja mantido intacto a força e poder do ASÈ desse espaço sagrado.

Lúcia Veríssimo

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