E agora, Gabeira?

Era início dos anos 80 quando tive meu primeiro contato direto com Fernando Gabeira, que até então era para mim, um dos ícones da luta contra a ditadura a qual fomos aprisionados por mais de 20 anos. E ele estava fundando no Brasil o Partido Verde, que há anos eu tinha como idealismo político assistindo o trabalho feito por um partido nos mesmos moldes e nome na Alemanha.

Radical defensora do meio ambiente como sempre fui, arregacei as mangas e ao lado de Lucélia Santos, Sirkis, Minc e o próprio Gabeira, sem nenhum recurso financeiro, passamos a lutar para que ele participasse ativamente na política brasileira.

O desenrolar dessa história é complexa e daria praticamente um livro. Mas esse post agora é para afirmar que Fernando Gabeira continua me reapresentando. Por sua lucidez, por seu comprometimento, por sua honestidade e visão ampla sobre o meu país. Sei que muitos (infelizmente a maioria) têm preguiça de ler, mas nesse momento tão delicado em que nos encontramos, essa matéria é necessária.

Obrigada, Gabeira, por nesses anos todos você confirmar que jamais errei na escolha que fiz há mais de 30 anos. #fernandogabeira #luciaverissimo #partidoverde

E agora, Gabeira?

RIO

É impressionante como o lugar que a gente nasce tem um efeito extraordinário e positivo sobre o nosso ser.

Como se preencher de um aleitamento materno num momento de vazio.

Foi assim que me senti quando fui ao Rio há duas semanas. Reconfortada.

Não fazia ideia da falta que estava me fazendo sentir a energia de onde fui gerada, criada, moldada…

Nunca foi tão claro entender sobre aquela régua e compasso que a Bahia deu à Gilberto Gil.

O Rio me deu régua, compasso, ginga, atitude, malandragem, sedução, cheiro de maresia e principalmente estrutura.

E foi atrás dela que fui.

Estava me sentindo deslocada, solta num espaço sem um fio condutor. E tem momentos que se sentir assim é muito assustador.

Já vivi fora do meu país e confesso que é chato se sentir estrangeiro. É bom quando podemos sentir o lugar que te viu nascer e crescer.

Andar por suas esquinas, encontrar olhos, vozes, acenos tão familiares.

Andar sem pensar que caminho você está fazendo, pois são os caminhos que te encontram e não ao contrário.

Assim pude me sentir de novo livre.

São as nossas raízes.

Como é importante a busca dessas raízes. É na verdade, fundamental.

E o encontro com meus amigos foi algo de extraordinário. Noooossa!!! Fez toda a diferença. São muitas vidas vividas junto.

Não me arrependo de ter escolhido Sampa para viver atualmente, mas sei que agora tenho que me reestruturar de vez em quando.

Rio terra de veludo, me guarda me rege e me ilumina.

AUSÊNCIA

Poema Vinícius de Moraes, música Goran Bregovic, voz Lúcia Veríssimo

Hoje recebi de uma das minhas melhores amigas uma mensagem de texto afirmando nossa ausência uma da outra (estamos em cidades com 500 km de distância e vidas repletas de compromissos), mas me mandou um poema de Drummond que dizia assim:

 ” AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta 

e lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência. Ausência é um estar em mim.

E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços

Que rio e danço e invento exclamações alegres.

Porque a ausência, esta ausência assimilada,

Ninguém a rouba mais de mim.”

 

E me deu uma enorme vontade de escrever sobre a ausência.

Engraçado pensar na ausência como um preenchimento, mas pensando bem, estar vagando com alguém dentro de si é não estar sozinho, de fato.

São as lembranças, as imagens do que vivemos, o cheiro ainda sentido e os sons também ecoando profundamente nos labirintos da nossa cabeça.

Fico com a impressão que essa ausência toma de assalto os martelos de meus ouvidos e se põe a martelar aqueles gemidos e sussurros que não se deixam calar.

Como admitir esse caminhar cheio de sofreguidão como sendo invasão?

Não, Clarice tem razão, “saudade é como fome. Só passa quando se come a presença”.

Mas acabo de perceber que é aí que se tem que mergulhar, no entendimento de que estando pleno de uma ausência, se está acompanhado de uma escolha e que temos enfim, uma companheira que não nos abandonará.

Clarice me veio novamente dizendo:

“…Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.”

Mas ela também afirma

“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.”

E o que é a ausência senão um afastamento. E afastamento não pressupõe não existência e sim que alguma coisa pode vir, ou voltar, para mudar esse sentimento.

Então sigo preenchida de você que agora dentro de mim está, como um órgão a fabricar alegrias que me levem a conquistar espaços longínquos e viagens astrais de pura satisfação.

Quem sabe em outro tempo essa ausência faça em mim a presença ou que outra ausência me faça preencher mais espaços vazios de você.

“A Eterna Ausência

Eu aguardei com lágrimas e o vento
suavizando o meu instinto aberto
no fumo do cigarro ou na alegria das aves
o surgimento anónimo
no grande cais da vida
                                           desse navio nocturno
que me trazia aquela com lábios evidentes
e possuindo um perfil indubitável,
mulher com dedos religiosos
e braços espirituais…

Aquela mulher-pirâmide
                                           com chamas pelo corpo
e gritos silenciosos nas pupilas.

Amante que não veio como a noite prometera
numa suspensa nuvem acordar
meu coração de carne e alguma cinza…

Amante que ficou não sei aonde
a castigar meus dias involúveis
ou a afogar meu sexo na caveira
deste carnal desespero!…

António Salvado, in “A Flor e a Noite””

Ausência com Cesária Évora

Aproveito também para homenagear uma ausência que nos preencherá de bons sons e nos deixará uma enorme lacuna no cenário musical, Whitney Houston

 

 

Não Tem Solução…

No último post eu só reclamei.

Mas foi um final de ano bastante complicado.

Mas vou afirmar que por mais que tudo pareça estar errado, sempre tem o outro lado da moeda.

Passei um réveillon de grande reflexão e algumas arrumações. Internas, externas, na mente, no coração e no corpo. Entendimentos de que “infelizmente nem tudo é, exatamente como a gente quer”. Paciência.

Eu queria rir até a barriga doer, descobrir cheiros novos – mesmo que nos mesmos lugares -, ter o prazer da doce presença de mãos afagando, abraços apertados, segredos saborosos nos ouvidos com vozes sussurradas, dormir por horas de conchinha, ver filme a tarde, cozinhar no fogão a lenha lado a lado, receber os amigos que querem o mesmo sempre, ver a lua enchendo e a lua cheia, ficar na rede jogando conversa fora com a brisa do final de tarde, e pular da cadeira com o pé direito na meia noite, lado a lado e olhar no fundo dos olhos e dizer: Noooossa, como eu te amo!

Pois é…

E recendo amigos em casa, resolvemos enfim, mexer nos baús de fotos para fazer o tão prometido mural que há tempos adio.

Foi fantástico me reencontrar e enxergar tudo que vivi, que fui, que sou e que certamente serei.

Nas aulas de teatro que ministro, sempre digo que se existe um exercício importantíssimo na formação de um ator é a colcha de retalhos que costuramos dentro de nós, tecida com tudo que absorvemos culturalmente. Somos o resultado de todas as peças de teatro que assistimos, exposições que visitamos, show que vemos, livros que lemos, filmes que nos emocionamos e conversas e convivência com aqueles experientes a quem admiramos. Somos seres antropofágicos. Precisamos absorver arte para fazermos arte.

E vendo meu histórico fotográfico, me lembrei do que construí para mim. Me lembrei de tudo que me formou, de tudo que absorvi, de todos os lindos amores que vivi, os trabalhos que me envolvi, amigos que cultivei, lugares que morei pelo mundo, mesas que frequentei e vi o quanto cresci em todas as minhas escolhas.

Já valeu a pena demais.

Ficar orgulhosa de ter tido a coragem de me desgarrar do jugo familiar tão cedo e me lançar mundo a fora, errando e aprendendo muito.

Também captei que jamais devo me desviar do meu caminho. Que de forma nenhuma e nem por ninguém eu devo me afastar nem um milímetro de tudo que sou eu, dos meus desejos, minhas vontades, meus amores, minhas lutas, aquilo tudo que construí e que me faz ser. E que a cada dia novos desafios virão e eu tenho que estar sempre atenta.

Atenta às minhas crenças e a realidade que escolhi.

Acabei por dar gargalhadas e não só a barriga doeu de rir como também chorei de alegria.

E acho que estou novamente renascendo. Já nem me lembro mais quantas vezes tive que arrancar toda a pele e sair da fogueira pra me sentir inteira novamente.

O primeiro show que fui assistir nesse ano novo foi o de Nana Caymmi. Nana é uma das que aparecem em muitas fotos da minha galeria. Somos amigas há muitos anos. E vê-la, na primeira semana do ano, foi um esplendor.

Não falei com ela antes dela entrar em cena e nem sabia que ela tinha sido avisada da minha presença.

Fiquei comovidérrima por ter sido homenageada por ela que me dedicou uma das canções do show.

E fiquei muito surpresa pela canção que ela escolheu para dizer do amor que sente por mim.

Veio como uma luva para essa nova fase em que pretendo redescobrir o amor por mim mesma.

É não tem solução, ou melhor a solução agora é acreditar que tudo vai para o lugar que deve ir, assim como as fotos da galeria, os livros na estante, os papéis guardados ou jogados na lata do lixo, a mesa do escritório enfim vazia, as roupas que não são usadas agora descartadas, as escritas atualizadas, os projetos sendo tocados, os telefonemas respondidos e o amor que sinto, bem esse é bem meu e só eu sei onde vou colocá-lo.

Um belíssimo ano de 2012 a todos e pelo amor a vida, sejam felizes.

https://youtu.be/w-xobag1DBw

Crime sem Castigo

Todos os anos, no final do ano, vários jornalistas de todos os cantos do país, mandam perguntas sobre essas datas e o que desejamos para o ano que vai chegar.

Esse ano não foi diferente, mas uma delas me chamou mais atenção. Foi feita pelo Rodrigo Prado do Jornal A Tribuna, Espírito Santo, para o AT2, caderno de cultura.

Ele me perguntou: “O que você gostaria de esquecer (um momento da vida ou um acontecimento desagradável, por exemplo) e o por que? Não vale dizer que não gostaria de esquecer nada (risos).”

E minha resposta foi:

Esquecer de todas as vezes que tive que assistir cenas de violência contra animais e que os criminosos nunca são punidos por suas ações; esquecer todas as vezes que tive que suportar ouvir ataques preconceituosos dos hipócritas de plantão; esquecer que vivo num país que políticos são perdoados por seus deslizes, seus atos de desrespeito aos cidadãos que votaram neles e os sustentam nababescamente para que continuem com suas atitudes corruptas e desleais;  finalmente queria esquecer que o ser humano é um destruidor por natureza.

Depois fiquei pensando nessa mágoa toda que saiu de uma vez só, por uma janela sem tramela. Parecia um vento batendo forte e rompendo com todas as trancas.

E me pus a pensar que cheguei a esse final de ano com dores profundas.

Quis entender o porque dessas dores e vi que tinha razão de reclamar sobre tudo que respondi mesmo.

Todos os dias chegam milhares de avisos monstruosos sobre maus tratos aos animais. São amarrados em carros e motos, arrastados até a morte, levam tiros na cabeça, são espancados até morrerem, colocados para serem assados “vivos” dentro de micro ondas, esfaqueados porque têm medo de fogos e essas atrocidades todas, na maioria das vezes, são cometidas por seus próprios tutores.

Tutela quer dizer proteção, amparo. Tutor quer dizer alguém que defende. É derivado da palavra TUIÇÃO que é ato de DEFENDER.

Como assim? As pessoas estão chegando ao terror de espancar até a morte um animal de menos de 3 kgs, na frente da própria filha de 2 anos de idade e o que aconteceu à ela? Perdeu o direito de criar essa criança? Foi presa por cometer um crime desses? Está sendo julgada por crime hediondo? NÃÃÃÃOOO!!!

Estudos nos mostram que TODOS que praticam crimes contra humanos, começam praticando contra animais.

TODOS os serial Killers praticam crimes bárbaros contra animais desde a sua infância até quando começam a cometer contra humanos.

E aqui no Brasil nossos juristas, deputados, senadores não conseguem compreender essa lógica.

Esperam que tragédias aconteçam para aí julgarem o assassino de forma correta.

Vou citar alguns casos:

“Em 1998, Russel Weston entrou no Capitólio e começou a atirar ao redor, quando terminou dois policiais estavam mortos e um visitante ferido. Poucas horas antes, Weston já havia atirado em uma dúzia de gatos de rua alimentados por seu pai”;

“Albert de Salvo (o estrangulador de Boston) – Assassinou treze mulheres (na juventude prendia cães e gatos em jaulas para depois atirar flechas neles)”;

“David R. Davis – Assassinou a esposa para receber o seguro (matou dois pôneis , jogava garrafas em gatinhos, caçava com métodos ilegais)”;

“Edward Kemperer – Matou os avós, a mãe e sete mulheres (cortou dois gatos em pedacinhos)”;

“Henry L. Lucas – Matou a mãe, a companheira e um grande número de pessoas (matava animais e fazia sexo com os cadáveres)”;

“Jack Bassenty – Estuprou e matou três mulheres (quando sua cadela deu cria, enterrou os filhotes vivos)”;

“Jeffrey Dahmer – Matou dezessete homens (matava os animais deliberadamente com seu carro)”;

“Johny Rieken – Asassino de Christina Nytsh e Ulrike Everts (matava cães, gatos e outros animais quando tinha onze ou doze anos)”;

“Luke Woodham – Aos dezesseis anos esfaqueou a mãe e matou duas adolescentes (incendiou seu próprio cachorro despejando um líquido inflamável na garganta e pondo fogo por fora e por dentro ao mesmo tempo)”;

“Michael Cartier – Matou Kristen Lardner com três tiros na cabeça (aos quatro anos de idade puxou as pernas de um coelho até saírem das articulações e jogou um gatinho através de uma janela fechada)”;

“Peter Kurten ( o monstro de Düsseldorf ) – Matou ou tentou matar mais de cinqüenta homens, mulheres e crianças (torturava cães e fazia sexo com eles, enquanto os matava)”;

“Randy Roth – Matou duas esposas e tentou matar a terceira (passou esmeril elétrico em um sapo e amarrou um gato ao motor de um carro)”;

“Richard A. Davis – Assassinou uma criança de doze anos (incendiava gatos)”;

“Richard Speck – Matou oito mulheres (jogava pássaros dentro do elevador)”;

“Richard W. Leonard – Matava com arco e flecha ou degolando (quando criança a avó o forçava a matar e mutilar gatos com sua cria)”;

E até quando teremos que assistir esses políticos nos tratando como escravos de seu prazer?

E até quando o ser humano vai continuar sem entender que estamos aqui de passagem, esse não é nosso fim. Não adianta querer que a vida seja só ganância.

Em nome desse enriquecimento ilícito, destroem matas, rios, mares e tudo que NÃO nos pertence.

Isso sem falar nas milhares de crianças sem educação, população sem saúde e o m;inimo de condições de sobrevida por que o dinheiro que deveria seguir em direção a eles, vai para os bolsos dos mesmos comandantes do país.

É muito triste chegar ao final do ano percebendo que muito pouco conseguimos mudar dessa lama toda.

Mas é ótimo perceber o quanto ainda temos força para continuar lutando e quem sabe as tramelas que se romperam na minha reclamação sejam as mesmas que romperão com os grilhões da ignorância?

 

 

A PELE QUE HABITO

Após 50 horas de ter assistido ao filme de Almodóvar “A Pele que Habito” é que pude sentar para escrever sobre mais uma obra impactante desse inquieto e instigante diretor.

Desde a “Lei do Deseo” que sou fã incondicional de seu estilo.

Ele tem o dom de saber colocar todos os preconceitos esparramados quase que agressivamente em seus filmes.

Sempre defendo que a vida imita a arte e que os espectadores em se espelhando no que é mostrado, podem quem sabe, fazer o movimento de mudança em suas vidas.

E é pra isso justamente que serve a arte. Questionar, inquietar, provocar sua sociedade.

Aliás em “Lei do Deseo” ele consegue falar de todos os mais perseguidos: drogados, homossexuais, transexuais… É um festival de preconceitos expostos. E o take no carrinho da garotinha fazendo a mímica da Maysa Matarazzo cantando Ne Me Quit Pas é uma das cenas mais lindas que já vi no cinema. Verdadeira obra prima.

Já em “Pele que Habito” ele trata principalmente de um assunto que nunca vi retratado dessa forma tão impactante.

Não vou colocar detalhes do filme, pois não podemos fazer a idiotice de entregar a grande surpresa e por isso vai ficar mais difícil escrever sobre ele.

Mas quero perguntar, quantas vezes você já se sentiu aprisionada numa pele que não te pertence?

E aqui quero colocar pele no sentido mais amplo possível.

É o que chamamos de algo que nos “reveste” por fora.

Só aí aflora uma quantidade enorme de visões sobre.

Revestir-se externamente. E o que fica internamente?

E esse interior que é sufocado por leis, preceitos, errôneas leituras religiosas, intolerância, inveja por não ter coragem de mudar, despeito de conquistas, ignorância, arrogância, falta de amor e respeito ao livre arbítrio de cada um?

E desse interior que não é um tecido do lado do avesso para se esconder a linha que é bordada e sim um ser que estando aprisionado deixa, na maioria das vezes, de seguir seu caminho em busca de ser feliz?

Quantas peles nos obrigam a vestir?

Quantas delas nos pertencem? Ou quantas peles ainda vamos permitir que nos cortem, castrem e costurem sobre uma ótica que não nos pertence?

O quanto de nossa pele ainda vamos deixar queimarem nas fogueiras da HIPOCRISIA?

Essa Fundura

Quando tudo se coloca de pernas para o ar, o melhor é não resistir.

Se entrega, mas tenha coragem de se entregar completamente.

Sinta a sensação de estar escorregando para dentro de um poço escuro e nem adianta ficar tentando se segurar nas paredes, sinta apenas aquele frio na barriga que sentimos quando sonhamos que estamos caindo das alturas.

É inevitável mesmo, então procure pelo menos, ser inteira.

Porque só existe uma forma de você sair de lá do fundo, batendo com toda força lá embaixo e pegando folego para, num salto sair, da escuridão.

Pense comigo, a gente já conseguiu romper um ventre, sair de um lugar que era aconchegante, seguro e familiar em busca de um mundo desconhecido, como não temos coragem de fazer o mesmo tantas outras vezes na vida?

Acho que temos que sentir esse poço como sendo uma espécie de volta ao ventre. Uma forma de nos reestruturarmos para rompermos com o que está nos aprisionando.

Sejam prisões familiares, profissionais, afetivas. Tá bom, sei que essas, as afetivas são as piores e também as mais difíceis de se desprender.

Mas é só isso que devemos fazer.

Não estou afirmando que devamos ficar no limbo e sim ter a coragem de chegar nele para sair fortalecido.

E na volta, dependendo da fundura do poço, podemos ter aquela sensação, que pra mim é angustiante ao extremo, da volta de grande profundidade com pouco ar na garrafa (para quem mergulha como eu, vai entender perfeitamente o que eu digo). Aquele pavor de não conseguir ter o suficiente de ar para colocar para fora do pulmão enquanto sobe e se tiver que parar no meio a garrafa pode não ter mais nada pra te oferecer. Aquela aflição de olhar pra cima e só ver água e mais água e nada de encontrar um pedacinho de céu para aliviar.

Agora tem uma coisa, se você tiver essa imensa coragem de se jogar fundo mesmo, e ficar por lá se revendo, pode ter a sorte de na volta encontrar na saída a cara mais linda do mundo a te esperar.

Aí meu amor, você me salva, me retira desse naufrágio necessário.