Hoje, particularmente hoje

Hoje, particularmente, hoje, todo o meu desejo clama por você.

Enlouqueço de não me saber presente em você agora.

Onde mesmo nossos mais se tornaram desiguais?

Não, aí nesse lugar exatamente habita o erro, justamente aí é que o engano se faz.

Acontece que não seremos mais desiguais. Já nos embaralhamos.

Afinal, já tem tanto que já definimos o quanto fomos esculpidas em carrara.

Esculpidas e encarnadas…

A cada dia que passa mais de mim você tem e mais de você se acomoda em mim.

Me impressiono com a similaridade e me encontro em seus traços.

Lamento informar, a simbiose já foi feita. A mistura já está no mesmo caldeirão.

Ela é a prova da sem-vergonhice a que nos entregamos.

Nesse entrelace de nos perdermos em onde começa cada uma.

Também não importa, deixemos então pra uma outra época, outros tempos…

Esperemos que ciclo das coisas se façam e certamente nos encontraremos.

“Eu não sei muito bem o que vou fazer em seguida, mas por enquanto, olha pra mim e me ama! Não! Tú olhas pra ti e te amas.

É o que está certo.”(Lispector)

Vai ver que é porque hoje é dia 31 de outubro, dizem que é dia das bruxas… Dizem também que elas voam…

 

 

INVENTO O AMOR E SEI A DOR DE ENCONTRAR

“Invento o amor e sei a dor de encontrar
Eu queria ser feliz..” (Milton Nascimento)

E assim, a cada descoberta vou me deparando com as minhas limitações. Vou me colocando em cheque e descobrindo até onde a coragem de me lançar é maior que o desejo de não mais sofrer.

Saber da dor que se tem ao inventar um amor ainda não me afugenta desse mergulho no caos.

Todas as esperas transformadas em desenganos. Desencontros. Naufrágios

Mas existiram sim momentos de cais, onde confortavelmente me amarrei àquele toco de amarração e ali eu experimentei aconchego e até cheguei a acreditar que vivi momentos de paz.

Momentos que minha invenção permitiu que em mim se fizesse acreditar.

Mas o amor é o mar. E nele se encerram os mistérios, a falta de domínio, a ausência de exatidão. Existe a fúria, a volta ao passado mais remoto de nossa existência. O medo.

A luta feroz pela sobrevivência num lugar sem esquinas.

A imensidão, a solidão, o saber-se tão pequeno e mesmo assim um gigante na criação.

E assim criei você.

Com esse mar de amor dentro de mim.

Te ofereci meu oceano inteiro. Todos os mais de todos os oceanos. Queria dar-te os oceanos de outras dimensões. Com outras dimensões.

Mas você, ainda encerrada pelos grilhões do tempo, não me permitiu e não quis que eu te mostrasse que, navegando no mar que criei pra você, você chegaria onde nunca houvera ousar.

Foi quando não consegui mais enxergar o meu mar em seus olhos. Quando apenas o desague se fez como uma espécie de ralo que alguém, displicentemente, fez questão de destampar.

E fui me esvaindo até perceber que sem os oceanos que posso ainda criar, não sou nada.

Corri para o meu cais, para me refazer. Respirar, me reorganizar.

Pois sei que tenho mais um milhão de oceanos que me esperam para criar, navegar e quem sabe ser feliz.

https://youtu.be/frHaMD7eVfA

 

 

 

Bem Devagar

Assim como somos capazes de dizer não a um amor, somos também capazes de decidir abrir o coração e dizer sim a alguém que escolhemos.

Sabe, é uma questão de decidir mesmo.

Não somos escolhidos pelo amor ou por alguém. Escolhemos viver aquele sentimento com aquela determinada pessoa e pronto.

Fico impressionada, com o decorrer do tempo vivido, como é claro para mim, como somos donos absolutos de nossos desejos. Só nós mesmos é que traçamos aquilo que queremos.

Inclusive a escolha de ficar choramingando pelos cantos, certos de que somos preteridos, quando na verdade, nós é que decidimos a quem vamos amar, a quem vamos permitir chegar, a quem vamos abrir nossos braços e tudo o mais.

O processo de se vitimar é um dos mais ridículos.

Por que se tornar a presa se na real somos os caçadores?

Estou certa de que abri meu coração com toda a força para alguém entrar, mas nesse momento, estou mais certa ainda de que meu amor, só pertence a mim mesma e faço dele o que melhor me apraz, portanto, posso acordar amanhã livre desse amor e querendo outro em seu lugar.

Basta que decidamos.

Sei o quanto é difícil imaginar isso e acreditar nisso quando nosso alvo é alguém e esse alguém nos despreza.

O quanto é desanimador quando permitimos que nossa paixão fale mais alto que nosso sentido de preservação.

Mas como é uma delícia se deixar levar bem devagar por uma devastadora paixão.

Sentir seu calor aquecendo a pele fria bem de mansinho. A gente jogado ali, como numa manhã de primavera, bem cedo, numa praia deserta em que somente as gaivotas sejam eloquentes. Esse calor vai tomando tudo ao redor, da superfície mais exposta as camadas mais ocultas.

Como é bom sentir isso.

Sentir quando sua boca arde de secura e fria busca a saliva do seu amor, posto que esse é o único líquido esperado, augurado e bem devagar você vai sendo embebedado, embebedado, embebedado, até que tudo que te resta é o êxtase da embriaguez.

Como é bom sentir isso.

Olhar essa lua que está exposta em brasa largada nesse azulão profundo e sem que se espere – não, melhor que se espere sim, fica mais excitante – ser atropelado por uma respiração quente que vai chegar por trás, bem devagar e te arrepiar até o poro mais recôndito.

Como é bom isso.

Então não posso permitir nada menos do que isso.

E bem devagar vou aguardar por apenas mais um segundo você entender tudo que eu quero e depois disso, muito mais rápido do que entrei, vou sair com todo meu amor debaixo do braço a caça de alguém que esteja esperando sentir o mesmo que eu, bem devagar.

Porque bem devagar só é bom quando é dos dois lados.

 

Comboio do Tempo

Já perdi a conta da quantidade de vezes que escrevi aqui, nesse mesmo espaço, sobre o meu fascínio em ter acesso a uma maquina do tempo.

Quem me conhece ou já leu algum dos textos em que me referi a isso, sabe muito bem que minha máquina do tempo só iria pra trás.

Talvez por isso minha perseguição a lugares no mundo onde a história se faça muito presente.

Por isso fico tão triste com países que não respeitam suas raízes e destroem o que os remete à elas, o que diga-se de passagem, acontece com certa frequência no nosso.

Canso de ver fazendas coloniais e suas magníficas lembranças, sendo destruídas. Na cidade ao lado da minha fazenda, assisti a queda de imensas janelas coloniais para a entrada de esquadrias de alumínio.

Meu deus, que triste o povo que não respeita suas origens, pois rapidamente se acultura e vira mais nada.

Vivi em Paris em duas ocasiões da minha vida e é uma das cidades que mais amo no mundo. Aliás, a Europa é o lugar onde mais podemos ter essa sensação de estarmos numa máquina do tempo e isso me fascina.

Todas as vezes que andei pisando o chão do Florença me deu a nítida sensação de estar vivendo novamente os mesmos passos dados por tantos gênios que admiro tão profundamente. O mesmo se deu todas vezes em que sentei em Lisboa no mesmo lugar que meu amado Fernando Pessoa esteve. Parece que posso olhar para o lado e responder a um questionamento dele, ou mesmo me sentir discutindo com um artista inquieto em algum café parisiense ou mesmo sentir os passos poderosos de algum imperador romano.

E o mesmo sinto quando passeio pelas cidades históricas mineiras, por exemplo, que sabiamente foram nomeadas patrimônio histórico e me remeto prontamente para tudo que somos nós. Piso aquelas pedras do calçamento de pé de moleque e esbarro com Tiradentes e o escuto bradar por sua revolução, me esgueiro por suas ruelas e vejo as sombras dos ladrões e dos amantes.

Na segunda vez que fiquei em Paris por um tempo, estava casada e ainda fumava. Era proibida de fumar dentro de casa e habitualmente saía para dar minhas voltas e tragar meu fumo negro em papéis de arroz. Paris não é uma cidade que seja um incômodo ter que sair para fumar. Cada dia fazia uma caminho diferente, chovendo ou não, frio ou não, o prazer de ficar por um tempo sozinha andando por aquela cidade Luz era inenarrável.

E por várias vezes sentei em praças, para calmamente enrolar meus cigarros e em longas e prazerosas baforadas ter conversas longuíssimas com escritores de efervescência dos anos 20, cineastas geniais dos anos 40, artistas plásticos enlouquecidos da Belle époque.

Eram tão reais as nossas conversas que até hoje me baseio em muitas delas.

Basta permitirmos que o que se reflete encontre a realidade na nossa mente e passa a ser verdade tudo que vivenciamos nesses sonhos acordados.

Verdade nada mais é do que o reflexo fiel de uma coisa na nossa mente e prontamente nos adequamos ao pensamento com a coisa e é verdadeiro todo o juízo que reflete corretamente a realidade.

Portanto quem irá me questionar se de fato encontrei com Baudelaire bebendo em becos de Paris e pude ouvir de sua própria boca “Embriaguem-se. Com que? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se”?

O que são nosso amores do que repetições do que já vivemos nessa ou em outra vida a procura do encontro perfeito?

E assim vamos seguindo. E melhor que façamos sempre projetando em realidade aquilo que nos remete ao que provavelmente vivemos e não recordamos mais.

Acho que dessa forma nossas outras vidas chegam a nós nos tempos atuais.

Foi de um prazer ímpar assistir ao último filme de Wood Allen (Meia Noite em Paris) e constatar que muitos pensam como eu e se remetem as suas tantas histórias e por tantos lugares em comum.

Não deixem de assistir.

Overjoyed

Overjoyed Stevie Wonder
Over time
I’ve been building my castle of love
Just for two
Though you never knew you were my reason

I’ve gone much too far
For you now to say
That I’ve got to throw
My castle away

Over dreams
I have picked out a perfect come true
Though you never knew it was of you I’ve been dreaming

The sand man has come
From too far away
For you to say come
Back some other day

And though you don’t believe that they do
They do come true
For did my dreams
Come true when I looked at you
And maybe too if you would believe
You too might be
Overjoyed
Over love
Over me

Over hearts
I have painfully turned every stone
Just to find
I have found what I’ve
searched to discover

I come much too far
For me now to find
The love that I sought
Can never be mine

And though you don’t believe that they do
They do come true
For did my dreams
Come true when I looked at you
And maybe too if you would believe
You too might be
Overjoyed
Over love
Over me

And though the odds say improbable
What do they know
For in romance
All true love needs is a chance
And maybe with a chance you will find
You too like I
Overjoyed
Over love
Over you

Over you

 

 

Grandes Amores

É, você me pergunta porque choro quando ouço “Resposta ao tempo”, vou te contar.

É que assim como você, eu também tive um grande amor. O maior amor da minha vida e também tive que abandoná-lo.

Como digo em Usufruto, grandes amores não são para serem vividos e sim para gente saber que existem.

E no processo natural das coisas, na mesma proporção que nos entregamos a esse amor e desfrutamos da alegria de saber que se é merecedor de tal sentimento, a dor que vem da impossibilidade de vivê-lo tem a mesma proporção de senti-lo.

Também já tive falta de ar por meu amor estar por perto a ponto de ter a certeza que só respirando o ar que vinha dele é que seria possível viver. Perdi a conta das vezes em que meu estômago revirou em sua própria órbita cada vez que eu sentia meu amor por perto. Tudo ao redor era melhor. E claro, a ansiedade de estar por perto era imensurável.

Assim como já senti seu cheiro a metros de distância sem nem saber da sua presença e quando olhei pra traz, lá estava o meu amor, a 10 metros de distância. E toma borbulhas no estômago…

Eu sempre soube, toda vez que tocava o telefone, quando era a sua voz que eu iria ouvir e a sensação de levitação era a mesma a cada constatação de que minha intuição não havia me enganado.

E ao ouvir aquela voz rouca? Nossa, era um verdadeiro acalanto pros meus ouvidos, bastava ouvir o tom daquela voz rouca falando, podia ser até passa a geléia, que eu me derretia e chegava a um local que nada e nem ninguém poderia me afetar.

Nenhum amor será feito com tamanha entrega, jamais em tempo algum.

Nenhum colchão, sofá, tapete, aviões, carros, paredes de banheiros onde por mais que houvesse enorme burburinho do lado de fora de nós, nossos ouvidos só conseguiam detectar a nós mesmos. O silêncios dos nossos gemidos e respiração. Era como se o mundo parasse para que o bloco do nosso prazer passasse explodindo amor.

Vivíamos tão dentro do que construímos que éramos capazes de sentir todo o efeito de nossos orgasmos apenas no nosso olhar. E como era lindo observar em seus olhos os asteroides desenfreados a buscas de milhares de Universos. Aquelas duas jaboticabas inquietas. Mas quando se aquietavam em meus olhos, era devastadoramente irresistível.

Sentir o cheiro de sua pele era transcendental. Cada centímetro de seu corpo era adorado por mim. Regado, tratado e desfrutado por mim. Nem sei o que dizer de todos os centímetros do meu corpo que te pertencia integralmente.

A cor da sua pele tinha matizes que não consigo na nossa nomenclatura definir. Aquele contraste da pele muito branca com seus macios cabelos negros era a única forma de uma rubro-negra admirar um alvinegro.

Isso sem falar nas gargalhadas que habitualmente erámos acometidos. É, eu e meu amor riamos muito de tudo, nos divertíamos a valer.

Cada frase apaixonada que me era dita, me transportava a um lugar que nunca mais consegui visitar.

Todas as nossas viagens eram uma delícia sem fim.

Nunca fui de dormir em aviões. Fico escrevendo, lendo, assistindo filmes e dificilmente tenho companhia nas madrugadas, mas ficar observando o meu amor dormindo ao meu lado, me tirava de dentro daquelas ferragens e me levava para as nuvens mesmo e eu ficava lá, confortavelmente zelando por seu sono. Olhando aquela carinha de criança feliz e assim atravessávamos oceanos, continentes, meu amor dormindo e eu olhando, de mãos dadas, muito coladas e era maravilhoso.

Aprendi o que é generosidade com esse amor. Aprendi a me abrir de verdade, sem medo da interpretação. Sem mentiras, sem medir as palavras. Nós podíamos dizer tudo e era compreendido perfeitamente. Não tínhamos segredos e mesmo o ciúme era na medida certa e só nos gerava mais companheirismo e certeza de que pertencíamos somente a nós mesmos.

Eu olhava para o lado e sabia perfeitamente que era aquela exata pessoa quem eu queria amar para todo o sempre.

E amarei, para todo o sempre.

Mas grandes amores não são para serem vividos e sim para saber que existem.

E assim, não estamos mais lado a lado, mas esse amor vai ser dono do último pensamento que terei no momento derradeiro, porque foi o que me deu o maior sentido pra minha vida.

Não existiu ninguém que se colocou no nosso caminho. Não nos apaixonamos, não fomos a busca de outras pessoas, não brigamos, mas nosso amor foi tão grande que nos ensinou que se não nos soltássemos, iriamos perder o mais precioso que nossos 5 anos juntos nos deu, a constatação de que fomos dignos de viver um grande amor.

Na verdade, verdade mesmo, até hoje não sei porque esse amor foi embora. Porque permiti que nos deixássemos. Se deu de forma tão, sei lá…

Eu sei que é difícil entender que não se deixa um amor assim, mas se deixa sim e é melhor fazê-lo antes que essas visões sejam opostas ao prazer. Antes que as diferenças sejam maiores que as semelhanças. Antes que nossos caminhos se confundam e nos atrapalhem.

E assim, meu amor me deixou, nos desvencilhamos e fomos apostar em novos amores. Vivemos relações muito importantes, nos abrimos para que o único exercício que nos faz dar sentido a vida se fizesse. Amar é o único sentimento que importa para que possamos cumprir nossa missão aqui.

Lamento que não pude viver o quanto eu gostaria de viver ao lado do maior amor da minha vida – pra sempre-, mas sei que temos outras vidas e que certamente nos encontraremos muito mais. Um sentimento desse tamanho não é apagado numa vida só. E que pra sempre é que nem nuca, tempo pra caral…

E, com a distância e o tempo a gente vai enxergando o grande amor sem a máscara da paixão, que nos cega sem perdão. E vamos vendo nossas desigualdades, aquilo que certamente iria te incomodar se tivéssemos permanecido juntos, algumas diversidades intransponíveis e chegamos a conclusão de que todos os amores, dos menores aos maiores amores de nossas vidas, só servem mesmo para aprendermos, amadurecermos, respeitarmos ao outro e que apesar de tudo que se diga ao contrário, o ser humano é um viajor solitário.

E assim, minha decisão foi sempre amar desenfreadamente, apostar no que encontro de interessante no meu caminho, sem ficar pensando no que foi, no que deveria ser e principalmente me reinventando a cada novo amor.

Ah! Tempo!!!! Você adormece as paixões, eu desperto.

Se roa mesmo de inveja de mim, pode me vigiar o quanto quiser para aprender como eu morro de amor para tentar reviver.

https://youtu.be/1sYSsbW44O8

LINHA DOS NODOS

Prestes a vivenciar a primeira das duas eclipses totais da lua que poderemos desfrutar nesse ano de 2011, me forço a pensar sobre os acontecimentos e enxergo claramente que meu problema é a linha dos nodos.

Esse ponto de intersecção entre mim e você, aqui representados pela lua e o sol, nesse meu divagar.

Lentamente nesse caminho, nesse vaguear de rumos incertos somos interceptados pela terra.

Agora uma inimiga, um bloqueio do que pra nós seria complementar. Sua luz que me invade, sol amado, para que eu possa, sendo lua iluminada, inundar de prata as paixões sem limites. E você sol, saber que sua luz será refletida em estelares brilhos de amor.

E entramos nessa zona de umbra. Eu por perder sua luz e você por perder seu reflexo.

Entre o que ilumina e o que é iluminado, existe a soma. A conjunção.

E o que existe de quem traz a escuridão?

Vislumbre do que perdeu de seu antigo brilho, a sua antiga grandeza ou influência?

É sombra! você entristece o espírito.

Agora, melancólico e frio está tudo a minha volta.

Aflita espero que toda essa massa de obstrução saia da minha linha dos nodos contigo e de novo eu possa sentir cada pedaço quente e iluminante seu, sendo derramado em luz.

Penetrando, sem pedir licença, todos as minhas crateras úmidas e sedentas do seu ardor.

Agora se seu desejo é ter nessa linha dos nodos a Terra obstruindo, just take it.

Pois jamais terei força suficiente para mudar o que não deseja ser mudado.

https://youtu.be/_vBaUcnVyIw

Albert Hammond – If you gotta break another heart

Basta Você Chegar

Sabe meu amor, você tem razão ao dizer que sempre temos que a cada adversidade, nos esforçarmos para nos adaptarmos as nossas diferenças que sempre serão grandes e aplicar mais esforços para fazer dar certo. Acho lindo quando você diz isso. Pra mim já soa como um investimento real.

Não posso dizer que são as nossas que são grandes, posto que qualquer casal tem diferenças imensas, afinal nem digitais chegam perto.

Evidente que para nos interessarmos por alguém, essa pessoa tem que ter alguns pontos em comum, alias, sempre achamos milhares de coisas em comum e isso é justo o que nos leva a investir numa nova relação. E a cada dia que passa essas verossimilhanças ficam cada vez mais fortes e na mesma proporção, são descobertas as diferenças que irão nos incomodar.

Daí surgem os afastamentos e a cada novo distanciamento, as pequenas brigas, desavenças, discussões por banalidades, telefones desligados com raiva, joguinhos de quem vai ligar primeiro, mal humores sentidos na voz, o toque fica cheio de não me toques…

Todas as vezes em que penso em todas as nossas diferenças, elas parecem que tomam uma proporção imensurável, a ponto de me tentar a por um ponto final definitivo. A me oferecer a escolha de um olhar para o lado, de me atrever a tomar novo caminho.

Impressionante como o Universo conspira a favor. Seja a favor de qualquer coisa.

Ou a favor do ficar junto, tanto quanto a favor da separação. E começa um horda de figuras atrás de mim, como de você.

Natural. Que belo exemplares somos, não?! Sempre capazes de despertar paixões por aí.

E quando estou mais do que convencida de que os caminhos enfim separaram-se de vez, tomo susto com sua chegada sem avisar, com passos mansos e inaudíveis. Sorriso sem graça, olhar de criança travessa.

Sou dura, eu sei, mas não tem como não amolecer ao seu olhar, ao seu cheiro quando me abraça e reclama “quer fazer o favor de abraçar também?! Abraço só é bom quando os dois abraçam”.

E essas voltas são devastadoras, pois têm um efeito bombástico nas decisões.

E passo a olhar cada pelo em contramão que seu corpo exibe, cada trejeito de animal no cio que você apresenta descaradamente e assim sendo, todo o feromônio que invade, sem perdão, todo ar que passa a me faltar. Passo a sentir o quanto as paredes ficam estreitas e como passamos a invadir o espaço sideral naqueles vôos e quedas em buracos negros deliciosos.

As bocas secas e geladas, os cabelos e lençóis encharcados, as mãos que apertam, esfregam, batem, soltam e buscam novamente, os joelhos que dobram as pernas que retesam com ventres que amolecem em…

E basta você chegar.