POR QUE OS ARTISTAS BEBEM?

Na frente da Rede Globo do Jardim Botânico ou Emissora (como chamávamos na época) – aliás ela tinha dois nomes, a parte da Rua Von Martius (onde ficavam os estúdios) era Emissora e a parte da Rua Lopes Quintas, (onde ficam, até hoje, parte dos escritórios da diretoria) de Vênus Platinada – mas na frente da parte dos estúdios, havia uma pequena banca de jornal, exatamente entre a Emissora e a Padaria Século XX, onde sempre acabávamos “pendurados” em cartazes nos fundos da banca. Quando chegávamos olhávamos bem para saber para saber o que tinha saído de fofoca a nosso respeito e chegar com a defesa pronta no famoso corredor.

Era o corredor que ficavam os estúdios.

Esse corredor era um caso a parte, pois como tinham 3 estúdios (A, B e C), onde eram gravadas as três novelas, das 18, 19 e 20 horas e os camarins, com todos os seus atores, dá para imaginar a confusão, não?

E ainda tinha uma época que a imprensa podia ficar ali também. Quer dizer, nada podia ser dito, nenhuma brincadeira, ou olhares que no dia seguinte estava publicado.

Nós nos dividíamos em cadeiras de plástico preto, ligadas por uma barra de ferro. Parecia uma repartição pública, sabe como é? Elas não se separavam e nós ficávamos como xifópagos. Então passar por esse corredor era uma prova de confiança em seu próprio taco, sem precedentes.

A maneira como você chegava determinava o resto do seu dia ali dentro.

No fundo, até que era muito divertido. Um grande exercício.

Gravar naquelas circunstâncias era uma loucura, mas mantínhamos uma frente de 20 capítulos na maior parte do tempo de uma novela, o que hoje em dia é muito difícil de acontecer, mesmo tendo o conforto do Projac com seus inúmeros estúdios.

Ter essa frente significava que tínhamos tempo para errar e corrigir.

Fazer uma novela com frente nenhuma é de um perigo enorme.

Mas esse é outro assunto.

O fato é que, um dia chegando para trabalhar, vi pregado na banca de jornal, enormes cartazes da Revista Amiga (que chamávamos carinhosamente de Inimiga), que trazia a seguinte reportagem: PORQUE OS ARTISTAS BEBEM?

Ora essa.

Fiquei indignada.

Como assim os artistas bebem?

O que significa essa reportagem?

Podem acreditar que fazem uma chamada de capa de revista com essa manchete?

Alguém parou e decidiu essa pauta para uma matéria. Pode?

Não devia poder, mas pôde.

Não consigo me lembrar de nada dessa matéria tamanha a minha indignação, mas até hoje penso no tema.

Não vou me ater a discutir sobre os bancários, vendedores de livros, gerentes financeiros, jornalistas, faxineiras, médicos, mendigos ou qualquer outro mais que beba.

Para dizer a verdade, nem vou discutir sobre porque se bebe ou não.

Por que se fuma?

Por que se conta piada? Por que ouvimos música? Por que vamos a festas?

Ora, porque tudo é absolutamente normal, apenas em nós artistas, vira um grande escândalo.

Então quero apenas discutir sobre a nossa dificuldade de viver num mundo padronizado com regras estipuladas por quem não nos perguntou o que achávamos (assunto que será recorrente em demasia em meu blog, podem se acostumar).

Essa dificuldade não é propriedade dos artistas e sim de qualquer um que pensa e que se oponha a essas regras.

A diferença é que nós artistas vendemos emoções. Isso é muito diferente de vender qualquer tipo de matéria física.

Emoções são sentimentos. Não podem ser tocados, expostos em vitrine. Você toca ou não o outro com a verdade de sua arte.

A arte sim é a diferença.

Tenho uma verdadeira adoração pelo escritor Plínio Marcos. É um dos maiores brasileiros nas artes, na minha opinião.

É dele o texto que considero a maior explicação do que é ser ator. Adoraria transcrever todo ele aqui, mas não sei se posso, então vou colocar alguns trechos como:

 

“…Mas o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e sobretudo em transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.”

 

Pois é, se despir do que somos e nos vestirmos do que vamos “vender”. Essa é a função do artista.

 

“Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor.”

 

Hoje, particularmente, resolvi falar disso por causa da matéria do segundo caderno do O Globo, sobre o lançamento do CD e gravação do DVD da Ângela RoRo.

Claro que na matéria, não se deixa esquecer que ela já foi personagem de alguns escândalos, que ela bebeu muito, muitas vezes, que ela se drogou, outras tantas…

E daí?

O fundamental é que ela é uma artista genial.

Uma compositora como poucas, uma mulher extremamente inteligente, de uma rapidez de raciocínio invejável – e para isso tem que se ter muita cultura e inteligência -, dona de um senso de humor que na maior parte das vezes destila seu fel contra ela mesma e além de tudo uma cantora e tanto.

Isso me lembra a capa da revista semanal de maior circulação do Brasil, quando da morte de Elis Regina.

Essa imagem não sai da minha cabeça, por mais que tente durante todos esses anos, pois a indignação que me deu foi a mesma de quando eu vi na banca, POR QUE OS ARTISTAS BEBEM?.

Era uma capa preta, com a Elis de braços abertos como uma redentora, vestida de branco. No rodapé, em letras imensas estava escrito em vermelho a palavra COCAÍNA.

Sem comentários, apenas uma pergunta, não poderia estar escrito, perdemos a nossa maior cantora.

Espero que ninguém se esqueça de que são da Ro Ro os versos a seguir:

 

“Por que queimar minha fogueira?

E destruir a companheira

Por que sangrar o meu amor assim?

Não penses ter a vida inteira

Para esconder teu coração

Mas breve que o tempo passa

Vem de galope o meu perdão

 

Por que temer a minha fêmea?

Se a possuis como ninguém

A cada bem do mal do amor em mim

Não penses ter a vida inteira

Para roubar meu coração

Cada vez é a primeira

Do teu também serás ladrão

 

Deixa eu cantar

Aquela velha história, amor

Deixa penar, a liberdade está também na dor

 

Eu vivo a vida, a vida inteira

A descobrir o que é o amor

Leve pulsar do sol a me queimar

Não penso ter a vida inteira

Pra guiar meu coração

Sei que a vida é passageira

E o amor que eu tenho, não!

 

Quero ofertar

A minha outra face à dor

Deixa eu sonhar com a tua outra face, amor.”

 

É duro, como num país sem memória nós precisamos ficar lembrando dos artistas pelos seus escândalos e não pela sua genialidade.

 

Rio de Janeiro, 18 de setembro de 2006.

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