A PELE QUE HABITO

Após 50 horas de ter assistido ao filme de Almodóvar “A Pele que Habito” é que pude sentar para escrever sobre mais uma obra impactante desse inquieto e instigante diretor.

Desde a “Lei do Deseo” que sou fã incondicional de seu estilo.

Ele tem o dom de saber colocar todos os preconceitos esparramados quase que agressivamente em seus filmes.

Sempre defendo que a vida imita a arte e que os espectadores em se espelhando no que é mostrado, podem quem sabe, fazer o movimento de mudança em suas vidas.

E é pra isso justamente que serve a arte. Questionar, inquietar, provocar sua sociedade.

Aliás em “Lei do Deseo” ele consegue falar de todos os mais perseguidos: drogados, homossexuais, transexuais… É um festival de preconceitos expostos. E o take no carrinho da garotinha fazendo a mímica da Maysa Matarazzo cantando Ne Me Quit Pas é uma das cenas mais lindas que já vi no cinema. Verdadeira obra prima.

Já em “Pele que Habito” ele trata principalmente de um assunto que nunca vi retratado dessa forma tão impactante.

Não vou colocar detalhes do filme, pois não podemos fazer a idiotice de entregar a grande surpresa e por isso vai ficar mais difícil escrever sobre ele.

Mas quero perguntar, quantas vezes você já se sentiu aprisionada numa pele que não te pertence?

E aqui quero colocar pele no sentido mais amplo possível.

É o que chamamos de algo que nos “reveste” por fora.

Só aí aflora uma quantidade enorme de visões sobre.

Revestir-se externamente. E o que fica internamente?

E esse interior que é sufocado por leis, preceitos, errôneas leituras religiosas, intolerância, inveja por não ter coragem de mudar, despeito de conquistas, ignorância, arrogância, falta de amor e respeito ao livre arbítrio de cada um?

E desse interior que não é um tecido do lado do avesso para se esconder a linha que é bordada e sim um ser que estando aprisionado deixa, na maioria das vezes, de seguir seu caminho em busca de ser feliz?

Quantas peles nos obrigam a vestir?

Quantas delas nos pertencem? Ou quantas peles ainda vamos permitir que nos cortem, castrem e costurem sobre uma ótica que não nos pertence?

O quanto de nossa pele ainda vamos deixar queimarem nas fogueiras da HIPOCRISIA?

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